quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Luiz Carlos Salatiel - Dos anos de chumbo a contemporaneidade


Alexandre Lucas - Quem é Luiz Carlos Salatiel ?

Luiz Carlos Salatiel - Um artista e produtor cultural inquieto que não gosta de farsas(admito apenas no teatro)e dissimulações. A impermanência é o meu paradigma. Sofro muito por saber que não vou alcançar -mas não desisto!- uma vida com qualidade plena em educação, saúde, política, meio-ambiente. De quando em vez me pego torcendo pelo Caos para ver se algo novo resurge das cinzas.

Alexandre Lucas - Quando teve inicio seu trabalho artístico?

Luiz Carlos Salatiel - Começei artisticamente sendo crooner de uma banda no final dos anos 60 (com 14, 15 anos). Depois começei a cantar e recitar as canções e a poesia de protesto contra os "anos de chumbo" em um grupo chamado DESAFIO, em Juazeiro do Norte. Neste mesmo grupo me iniciei nas artes cênicas e montamos Bertold Brecht, Millor Fernandes, Martins Penna, dentre outros. Quando cheguei ao Crato em 1970 participei do Movimento de Juventude, ligado à Igreja Católica, e lá foi que desenvolvemos a idéia dos Festivais da Canção que praticamente sedimentou a moderna musicalidade caririense.

Alexandre Lucas - Quais as influências do seu trabalho?

Luiz Carlos Salatiel - Num primeiro momento fui influenciado pela música de Geraldo Vandré. Depois, a anarquia do Tropicalismo me deu muitas referências, principalmente o grupo "Os Mutantes". Gosto da música cubana/caribenha/latina de Pablo Milanés, Sílvio Rodigues, Vitor Jara, Violeta Parra, para citar alguns.citar alh. Ouço sempre os Beatles. Quando morei no Rio estudei canto lírico. O Teatro de Boal foi também uma influência e hoje o que faz o Zé Celso Martinez é o que mais me atrai em termos do fazer teatral.

Alexandre Lucas - A sua trajetória consta de passagens pela música, teatro literatura, artes visuais, cinema e rádio. Essa experiência consolida o artista?

Luiz Carlos Salatiel - É. Expressar-se pelas múltiplas linguagens da arte é o que tento fazer sempre. Como falei no início, eu sou inquieto e nunca vou dizer pra mim que até aqui tudo já me bastou. Estou sempre buscando.

Alexandre Lucas - Como você ver a relação entre arte e política?

Luiz Carlos Salatiel - Eu sempre acho que a atitude do artista é sempre política: de interferência positiva ou negativa. Os artistas, quase sempre por sua postura libertária, são os primeiros a serem perseguidos pelos ditadores de plantão. Dia desses estava conversando com um amigo sobre todas as revoluções que aconteceram no mundo moderno e que no primeiro momento utilizaram o oprimido como argumento maior, me parece que nenhuma delas conseguiu acabar com a miséria do mundo. O artista e sua arte pode ser sempre um grande aliado: da esquerda, do meio ou da direita!

Alexandre Lucas - Você acredita que a diversidade musical do Estado do Ceará é contemplada nos eventos públicos, como Expocrato, Festa de Santo Antônio, Juaforró e o Férias no Ceará?

Luiz Carlos Salatiel - É terrível a forma de como somos tratados nos eventos maiores. Sem nenhum respeito. Na verdade, mesmo, eu faço uma música mais apropriada para teatro e não para multidões e, pessoalmente, não tenho interesse nos grandes eventos estimulados pelo alcool. Entretanto, paroquialmeste, as rádios do cariri não se interessam também por nossa música. Por que? No último show que fiz até pedi desculpas ao público que manifestava um prazer enorme em estar alí na platéia ouvindo belas músicas mas que desconhecia completamente.

Alexandre Lucas - Qual a sua opinião em relação ao financiamento público das bandas de grande porte?

Luiz Carlos Salatiel - Sempre há por traz disso alguma maracutaia. Jogo de interesses entre quem vende o produto e compra. Hoje É preciso que se apure com mais rigor esse tipo de denúnica. Os Conselhos Municipais de Cultura seriam um foro apropriado para se apurar tais procedimentos.


Alexandre Lucas - A falta de circulação nas emissoras de rádio e TV da musica produzida no Cariri é um empecilho para o artista da região?

Luiz Carlos Salatiel - Claro. Somos ilustres desconhecidos da nossa própria comunidade. Infelizamente, seremos reconhecidos um dia quando uma das nossas músicas se transformar em trilha de novela! Mas, mais importante que tudo é não se preocupar tanto com o sucesso e sim com o que a nossa arte pode trazer de ferramenta para transformar possitivamente a nossa comunidade. Aí, sim, esse é o grande "sucesso" almejado por mim. Eu não sou muito afeito a arte como puro entretenimento.

Alexandre Lucas - Você se considera um artista contemporâneo?

OLuiz Carlos Salatiel - artista é o grande inventor da contemporaneidade. É obrigação dele estar dando respostas aos questionamentos do tempo em que está inserido. A arte fossilizada é sempre o que o poder público quer para sua fácil manipulação e trabalhar a seu(dele) favor.

Alexandre Lucas - Como você ver a produção musical do Cariri?

Luiz Carlos Salatiel - O cariri será sempre vanguarda. Nenhuma outra região do nordeste (pelo menos) se manifesta com tanta pluralidade. Apesar de todas as dificuldades que enfrentamos conseguimos nos manifestar com uma certa grandeza. No programa que apresenta na Rádio Educadora, "Cariri Encantado", tenho me defrontado com a admirável diversidade muisical da nossa região. Os estúdios locais têm facilitado muito o registro fonográfico dos artistas daqui. A gente se ressente muito com a falta de produtores locais que possam assumir a feitura de shows, etc. e que provoque mais mobilidade/circulação por outras cidades fora do eixo Crato/Juazeiro/Barbalha. Se não fossem as atividades do CCBNB-Cariri (Juazeiro) e do SESC (Crato/Juazeiro) a nossa vida artística estaria bem ruim. Já percebí, também, alguma mobilização da URCA no sentido de empreender ações culturais extra-muros, o que é bastante louvável. Resistiremos, sempre!

Alexandre Lucas - A sua geração fez história no Cariri nas várias linguagens da arte. Você acredita que o grande público tem conhecimento desta trajetória?

Luiz Carlos Salatiel - O fato marcante como atividade artística no Cariri, principalmente, foi a realização dos festivais da canção que aconteceram no Crato dos anos 70 ate 78 (acho), no primeiro momento coordenado pelo Movimento de Juventude e depois pela SCAC - Sociedade de Cultura Artística do Crato. Até hoje os cinquentões guardam lembranças indeléveis dessa época. Os compositores de hoje, em sua grande parte, construiram sua musicalidade naquele tempo. Abidoral Jamacaru, Cleivan Paiva, Zé Flávio Vieira, Zé Newton, Eu mesmo, Pachelly Jamacaru,Geraldo Urano (foto), dentre outros, são figurinhas carimbadas desse album musical dos Festivais. Mas, convenhamos, são quarenta anos passados. Como diria Vandré: A vida não pode se resumir a festivais! Existe um novo tempo, novas gerações de poetas, compositores, dramaturgos, cineastas, artistas plásticos... Eu tenho saudades é do FUTURO!

Alexandre Lucas - E por falar em trajetória, quais seus planos para 2010?

Luiz Carlos Salatiel - Quando finda o ano a gente fica cheio de planos para o próximo, não é mesmo.

Na música, eu quero circular por algumas cidades com o show Girassóis, que está montado, e também quero formatar o novo CD que também levará o mesmo nome;

No Teatro, estou desenvolvendo um texto com o Zé Flávio e que devo dirigir. Depois, quero, como ator, desenvolver um monólogo;

No cinema, quero dirigir um curta-metragem que devo fazer em parceria com o Imago;

Nas artes-plásticas, já tenho aprovado pelo CCBNB - Cariri, uma exposição sobre os 40 anos do Festival. Apresentei o projeto como Curador e que será desenvolvido pelo artísta plástico Reginaldo Farias.

Salete Maria: Uma mulher da luta, da poesia e de coragem

Alexandre Lucas - Quem é Salete Maria?


Salete Maria - Um embrião cearense nascido em solo paulista por força do êxodo rural;
Uma mulher sem fronteira: esdrúxula, excêntrica, complexa e principalmente visceral;
Uma cordelista insurgente, considerada demente, malgrado sua contribuição social;
Uma cidadã neo-romeira, talhada em meio às trincheiras de uma rica cultura regional;
Uma advogada constante, questionante, militante, entusiasta de um jusdicere plural;
Uma professora sem flores, pudores e muito menos louvores do cânon institucional;
Uma estudante acesa, a caminho da defesa de uma (quase parida) tese doutoral;
Uma pesquisadora insolvente, buscando ser coerente com as mais caras demandas da vivência social;
Uma filha ‘maluvida’, mui grata e comovida com a cármica (e já batida) crise existencial;
Uma mãe pouco usual, camarada e dedicada a desmantelar o mito do dito amor maternal;
Uma amiga (e inimiga) igualmente entretida nas mais recônditas brigas de cunho espiritual;
Uma amante estreante, delirante, festejante, mas, sobretudo errante neste campo marginal;
Uma figura política, que faz e recebe crítica e, qual uma fruta cítrica, pode fazer bem ou mal;
Um ser humano incompleto, de coração inquieto que, ante sanção ou veto, busca o fundamental.


Alexandre Lucas - Quando tiveram início seus trabalhos poéticos?


É difícil demarcar, com exatidão, o começo da manifestação poética em minha vida. Acredito que desde que escutei os primeiros versos, lá por volta dos cinco ou seis anos de idade, na casa de meus avós, no Sítio Canabrava, município de Granjeiro-CE... Dali em diante - e sempre com maior entusiasmo - fui escolhendo fazer da voz e da escrita um instrumento de denúncias e pronúncias sobre o macro e o microssocial.


A coragem (e mais do que isto, a necessidade) de publicar, no entanto, veio somente lá pelos anos de 1994/95, quando no jornal “Caldeirão” do Diretório Central dos Estudantes - DCE da Universidade Regional do Cari ri, lancei o cordel/poema intitulado Desabafo Acadêmico Matuto, cujo mote era: “este curso de Direito só vai me desmantelar”. E é incrível como este cordel/poema teve/tem uma força tremendamente profética (para o bem ou para o mal) em minha vida nesta instituição (risos). Fico emocionada ao re-lembrar que estreei minha literatura torta ali, na graduação em Direito, naquele tempo em que a poesia era uma forma de expressão permitida naquele lugar...


De qualquer modo, foi em 1996 que eu publiquei a primeira edição do cordel Mulher-Consciência – nem violência, nem opressão, cujo conteúdo versa sobre a histórica condição de subalternidade feminina e a necessidade de organização das mulheres, onde exsurge a minha forte influência marxista. Daí em diante são 14 anos ininterruptos de publicação, com mais de 40 folhetos, versando sobre temáticas ligadas às questões marginais e periféricas, com destaque para as relações de gênero, violência contra mulheres, homossexuais, crianças, idosos, direitos humanos, assédio moral, e outros temas que me mobilizam...


Alexandre Lucas -Quais suas influências?


Salete Maria - ão múltiplas e variadas as influências subjacentes a minha obra. Todas são um reflexo da minha vivência, das minhas experiências das minhas relações, ou seja, da realidade social do meu tempo... Basta ler qualquer um dos meus textos para perceber a presença de variadas vozes e visões, não obstante eu sempre defenda uma proposta, sempre adote um posicionamento...
Para melhor explicar, vou dividir estas influências em duas vertentes, mas consciente de que ambas, ainda hoje, coexistem, simultaneamente, como um resultado da minha (con)vivência, do e no meu lugar social.


A primeira influência veio “naturalmente’’ do meu núcleo familiar, onde a literatura de cordel foi a principal (talvez única) modalidade artística acessada pelos meus ascendentes. Trata-se de uma influência sobre o tipo de literatura que eu produzo.


A segunda vem de relações e atividades sociais, institucionais mais gerais, mais amplas, como a escola, o movimento estudantil, o partido político, o sindicato, as manifestações culturais e religiosas, a atividade profissional, a prática de leitura, a participação em eventos e reuniões literárias e a aproximação com artistas, intelectuais e militantes políticos, tanto no Cariri como em Sampa, por exemplo. Trata-se de uma influência no sobre o conteúdo de minha poética.


No primeiro caso, posso dizer que o gosto pela literatura de cordel foi se construindo a partir da convivência com minha avó materna, Maria José da Silva, ou simplesmente Cumade Maria José, nascida em 1913, em Juazeiro do Norte, onde fora batizada e apadrinhada pelo Padre Cícero Romão Batista e Nossa Senhora das Dores. Sua presença em minha vida foi fundamental para minha poesia. Esta velha mulher, da qual sou descendente, faleceu em 2003, aos 90 anos de idade, tendo, ao longo da vida, parido mais de uma quinzena de vezes. Era, como muitos dos que moram no Cariri, descendente de romeiros pernambucanos e exibia uma grande sensibilidade poética. Mesmo cega e analfabeta, sempre “dizia” velsos e rumances para quantos quisessem escutá-la, no terreiro da cozinha ou na sala do santo de sua casa... Dentre os tantos ouvintes, eu era a que mais se “encantava’’ com sua performance poético-teatral. Minha avó era, para mim, uma atriz, uma show woman, um verdadeiro evento. Foi, portanto, a primeira poeta, a primeira cordelista que eu conheci. Nunca me cansei de apreciá-la recitando poesia e nem de ler para ela as dezenas de folhetos que havia em sua casa. Sempre que posso, ainda a “escuto’’, através das fitas cassete que tive a sorte e o prazer de gravar.


Além de minha avó, meu tio, o poeta Zé Alexandre, me inspira e me estimula, com suas rimas primorosas e seu amor à ‘’poesia matuta’’. Posso dizer que devo aos meus parentes, principalmente aos da zona rural, o gosto pelo cordel, pois estes, mesmo sem saber ler, eram possuidores de inúmeros exemplares e tinham na literatura de cordel uma atividade de deleite e também um veículo de notícias, através do qual sabiam das coisas do mundo. Através deles conheci a escrita de João Martins de Athayde, Severino Milanês, Leandro Gomes de Barros, Manoel Camilo, José Pacheco, Expedito Sebastião, Patativa do Assaré, Zé Limeira, dentre outros.
A segunda vertente de influências das quais não pude e nem quis fugir, vêm de muitos outros poetas, escritores, pensadores, filósofos, políticos e personalidades públicas de variadas épocas e matizes. É que além de cordel, eu também li muito gibi, jornal, revista, livros, cartas, benditos, bulas de remédio, etc. Acredito que meu trabalho é um profícuo diálogo com todas estas manifestações artístico-literárias que igualmente fizeram e fazem parte da minha formação cultural.


Em síntese posso dizer que - latente ou ostensivamente - tem sempre um Karl Marx sob minha arte, sob minha lente. Seja em Pessoa ou por algum descendente: Um velho Gullar, uma Beauvoir, uma voz do Assaré, um novo Tom Zé, um índio Cariri, uma flor de pequi, um Manoel Bandeira, um cantador de feira, uma Cristina Cesar, um Genival Lacerda, um Bertolt Brecht, um cabra da peste, uma Margaret Mead, um Martins de Athayde, um de Santo Amaro, um Raimundo Faoro, uma Elisa Lucinda, uma Dona Florinda, um Maiakovski, um Paulo Leminski, um Padim Ciço, uma jovem no viço, uma Safiotti, um Máximo Gorki, um Zé Ramalho, um dente de alho, um Belchior, um outro professor, um Walt Whitman, uma out vítima, um Monteiro Lobato, um velho retrato, uma Nísia Floresta, uma louca festa, um Luther King, alguém que me xingue, uma Kollontai, um neo-Karimai, um Michel Foucault, um pé de fulô, uma Judith Butler, um juiz com glitter, um Carlos Drummond, uma luz neon, uma beata oculta, um filho da puta, um embolador, um quase-doutor, uma cientista, uma trotskista, uma rezadeira, uma macumbeira, uma mulher latina, uma nordestina, contra suas sinas, com suas meninas, com suas gaitadas e suas facadas, um sol enxirido e um farol bandido, e ambos sentidos sempre vão surgindo, gritando e parindo, uma nova estrada.


São estas algumas de minhas más companhias, reflexões e (ins)pirações, são os velhos e novos sintomas de minha saúde no campo das artes.


Alexandre Lucas - Você tem uma produção literária com uma temática ligada a minorias sociais. Isso é escolha?


Salete Maria - Sim e não, obviamente (risos). É escolha e necessidade. É opção e imposição da vida, pois minha existência, meu lugar social está no campo dos sub-representados, das ditas minorias sociais. Sempre participei das lutas pelo reconhecimento de certos sujeitos e de seus direitos. Minha arte, portanto, desde que tenho consciência do meu lugar e do meu papel social, sempre foi assumidamente militante, participante, e eu não apenas tenho a coragem de assumir esta, para muitos, incômoda posição como tenho orgulho de me colocar desta maneira, malgrado o alto preço que se paga por adotar esta postura. Mas isto não faz parte do meu show, é o elemento central dele.


A respeito disto, concordo com Gorki, quando diz que o escritor “não pode ser uma simples testemunha contemplativa dos acontecimentos de sua época.” Com efeito, não sou mais um escriba de velhos conceitos que os registra, insípida e imparcialmente, ao longo da vida. Assim como Drummond, constato que “são tão fortes as coisas, mas eu não sou as coisas e me revolto!”. Sou uma escritora das revoltas, uma revoltada na melhor e mais política acepção desta palavra. Escrevo para provocar reflexão, revolta, pensamentos, conhecimentos, para, quem sabe, ajudar a mudar as coisas.


Werneck Sodré nos ensinou que as artes não são feitas apenas para o deleite, o ócio, o prazer. E eu reconheço que estas são possibilidades e aspectos importantes das artes. Mas a arte também é um processo de conhecimento, tão rico e tão importante quanto qualquer outro. Por isto não nego o caráter social e transformador do fenômeno literário. Eu escrevo profundamente (ins)pirada, mobilizada por aquilo que vivo, que experimento, individual, coletiva e, sobretudo, socialmente no meu tempo e no meu lugar...E o Cariri é um lugar de lutas onde minorias sociais oram, laboram, pelejam e constroem a sua história.


Alexandre Lucas - Como você vê a relação entre arte e política?


Salete Maria - Indissociável. Nada é mais político do que a arte e nem mais artístico do que a política.
Gosto de lembrar sempre para os que advogam a arte dissociada da vida real, da política, do processo de produção, que desde sempre a arte é um produto da organização política da sociedade. Desde as sociedades primitivas as artes estão diretamente ligadas ao trabalho. E como o trabalho estava diretamente ligado a natureza, as artes testemunhavam muito isto, ou seja, a presença do homem na natureza e também sua luta para transformá-la. A arte expressava as relações entre os grupos, a batalha pela sobrevivência... Neste período, como sabemos, a transmissão artística era quase que totalmente oral e visava a interpretação do trabalho, basicamente. O objetivo da arte era reter a experiência e suavizar o esforço despendido no trabalho.


Para compreender a relação arte/política, arte/sociedade, eu precisei dar um passeio pela evolução histórica do fenômeno artístico (que não é linear) mas que dá para perceber, ao longo dos tempos, a posição do escritor, do público, das técnicas de transmissão do pensamento e como tudo foi mudando de época para época, de lugar para lugar, conforme mudavam também as condições históricas da vida em sociedade.


Eu quis e quero entender isto para melhor entender meu trabalho e me situar neste processo dialético. Então, comecei fazendo perguntas. Como se dava isto nas sociedades primitivas? E nas sociedades escravistas? Ora, as pesquisas dão conta de tínhamos uma transmissão oral, onde todo mundo tinha acesso igual e não havia uma arte para uma dada classe ou exclusiva de determinadas pessoas, mas isto foi somente até certo período da história, porque depois foi surgindo as primeiras técnicas de registro gráfico do pensamento, das idéias, e também as classes sociais, aí se deu a ruptura entre o modo de se interpretar e justificar determinadas relações e a arte sofreu esta influencia também. Para o marxismo, é aí que vai surgir uma arte requintada e uma arte dita popular, uma literatura popular. A primeira passou a ter um registro gráfico, enquanto a segunda permaneceu oral. Então, foram as condições sociais objetivas que fazem com que acontecesse desta maneira. Foram as decisões políticas. E quando a gente estuda história, literatura e arte a gente vê que no mundo grego e romano a transmissão oral preponderava. O teatro era a mais importante prova disto. A gente percebe que havia uma conexão entre saber e religião e que tudo tava monopolizado pela classe dominante.


E na sociedade feudal? Ora, aí o clero monopoliza o saber e as artes. E, pela própria forma de organização social, predominantemente rural, a comunicação era muito rudimentar. Havia o cancioneiro nas pequenas comunidades e a literatura jogralesca nos castelos, para o deleite da classe senhorial. Sodré diz que aí surge o primeiro bilingüismo, ou seja, uma língua “culta” e uma língua “ popular”. Por razões óbvias, a arte literária oficial foi elaborada em língua dita culta e a arte do povo foi transmitida oralmente, em dialetos regionais, locais, ficando muito circunscrita... é desta arte aí que eu sou herdeira...


Bom, e depois? Aí veio o mercantilismo e o fim do feudalismo. Surge a nova classe com suas necessidades de conhecimento mais amplo e mais útil. Acontecem mudanças, inclusive nas artes, que, por força das navegações e outros meios, já não ficavam tão restritas a um salão. É claro que a desigualdade na produção e no acesso continua ate hoje. Mas não se pode negar que houve uma mudança de paradigma em termos de ampliação do saber e do fazer. Depois de criados os Estados com seus idiomas nacionais, e a unificação dos poderes com o surgimento da imprensa, muita coisa mudou, sobretudo o fim do domínio privado do saber e da arte pelo clero. A burguesia prometia generalizar, universalizar o acesso aos bens culturais. Mas nós sabemos que pobres, mulheres e outras categorias seguiram privadas do acesso e da produção da arte.


Bom, o desenrolar desta historia conhecemos bem, afinal os antagonismos de classe se acirram sempre e se manifestam inclusive por meio da arte, apesar de muita gente, - até mesmo artistas - afirmar que arte e política não se comunicam. Bom, por pensar diferente, eu produzo como alguém que está envolvida e que tem consciência da responsabilidade diante das questões sociais de minha época. Acredito que o ser humano e suas relações são o principal objeto de qualquer manifestação artística. E, já que o humano vive em sociedade, e pertence a uma dada classe, tem sexo, raça, etnia, numa palavra, é um ser político, não da para fazer arte fora da política, certo?
E é isto o que faço. Nasci e me desenvolvi como minoria social. Meu sentimento de pertença seja com relação a classe, gênero, etnia, regionalidade, etc, é assumido politicamente aqui no Cariri cearense. Faço escolhas e pago por elas. Isto também é arte, arte da sobrevivência (risos). Escrevo e falo sobre aquilo que me excita, incita, sobre o que diz respeito a meu lugar, meu mundo, meu tempo, meu modo de vida... Escrevo para dizer alguma coisa sobre algo que não foi dito ou que foi dito de modo que precisa ser contraditado. Sou uma escritora que também protagoniza, sou parte dos fenômenos sociais do meu lugar e do tempo. Sou, como todo ser humano, política.


Por isto tudo, penso que o artista que se refugia na conversa falaciosa da arte pela arte, que se diz incontaminado, puro, inevitavelmente se torna presa fácil do discurso de plantão, pois só é possível realizar arte ligando-se a realidade, caso contrário o artista cai numa produção vazia e sem perspectiva; afinal, como diz Sodré, a arte não pode prescindir das manifestações da vida, porque a vida é sua fonte fundamental. E o artista não está imune as contradições da vida.
Concordo com Gorki quando afirma que as idéias não são achadas no ar, como um gás ou similares, elas nascem da vida social, no terreno do trabalhado, da observação, da assimilação, das batalhas, dos fatos. Para ele, como para mim, o escritor não é apenas alguém que assiste, mas que depõe sobre o que assiste, e não o faz como uma testemunha passiva, incólume. A sociedade é o lugar onde acontece a observação e ação do escritor. Isto é política. E trabalha com política só pode ser político.


Noutras palavras, a arte também é um protesto contra a alienação, contra a exclusão, contra a opressão. Por isso o escritor tem um papel político importante a cumprir, especialmente em regiões periféricas como a nossa, onde predominam situações de pobreza, desemprego, discriminação, perseguição, violência, e morte. Aí o nosso papel ganha mais importância ainda.
Ademais, a poesia nasce das necessidades de reflexão, como o canto e a dança e outras manifestações. E serve à ação dos seres humanos. A questão da arte pela arte não me convence. Todo artista fala de um lugar social, colabora com alguma tese social. Na minha concepção, o escritor precisa ser honesto com o que ele acredita, tem que resistir contra a força tremenda da corrupção social que define tudo como mercadoria. Amo uma frase de Sodré que diz: “é barato tudo que se compra apenas com dinheiro”.


Tem também que ter consciência da luta histórica dos artistas pela liberdade de pensar, de criar, de se comunicar, sem algemas, sem limites. E não apenas contra as formas ostensivas de opressão, de impedimento, mas também contra as formas veladas, disfarçada, sutis e, por isto mesmo, mais perigosas de controle. Tudo isto é política e não podemos fugir disto.


Ademais, a arte não pode ser um bem que somente burgueses possam ter acesso. Não tolero esta posição imperialista, aristocrática e incompatível com a criação artística. Entendo que só há arte quando muitos, digo melhor, quando todos e todas podem apreciá-la. E somente uma posição militante pode fazer com que a arte seja ampliada, acessada pela maioria da sociedade. O artista não pode dizer nunca ‘’não tenho nada com isto’’. Por isto, reafirmo arte é política, por excelência. E, no meu caso, é lugar de muitas batalhas e de imenso prazer também.


Importa lembrar que os que negam o caráter político da arte também assumem e servem a uma proposta política. Um exemplo disto é a atitude de alguns ditos “especialistas de notório saber, eruditos e gramáticos da grande literatura” que ignoram ou boicotam o meu trabalho por conta não apenas da sua natureza, do seu formato, mas da explícita política que o caracteriza. São autoridades ferozes em suas posições, mas sequer tem coragem de admitir que não gostam da minha verve poética por que ela é assumidamente política. Limitam-se a dizer, quando dizem, que meu texto não é cordel, porque não é “tradicional.” São incapazes de procurar entender o que desejo passar e desprezam, com dedicado esmero a minha poética, negando legitimidade a minha poesia. Também não gosto dos meros repetidores de teorias estrangeiras, que, “com suas receitas universais e infalíveis” e com suas superstições ridículas, fingem gostar do que escrevo e muitas vezes ousam tentar explicar o que estou querendo dizer. Eles e elas têm razões políticas e sociais inequívocas contra ou a favor do conteúdo do meu texto, mas, não assumem para não fortalecer a minha tese de que arte e política se conjuminam.


A respeito disto eu pergunto: não é surpreendente e curioso que em eventos sobre versos, cantorias e artes conexas eu sequer seja convidada, sequer seja discutida, sequer seja citada por aqueles que me conhecem, quando alhures, em terras outras, eu esteja sendo premiada, estudada, (re)citada? Onde minha fala política não incomoda os poderosos de plantão. Ora, ora, a fúria lúdica da minha obra não será diminuída e sufocada pelo desprezo dos que argumentam que arte e política não se coadunam, mas, por razões inequivocamente políticas negam ou ignoram a minha produção justamente porque ela faz denuncias e pronúncias políticas específicas, endereçadas.


Lembremo-nos de que o artista em todos os tempos sempre professou a liberdade. E a liberdade é uma categoria política. Não é uma dádiva, mas uma conquista. Se um artista é discriminado ou segregado em face das idéias que professa, esta sociedade só pode estar doente, podre, putrefacta. Repito: através da arte o ser humano toma consciência da realidade e pode transformá-la. Eis porque algumas artes são consideradas perigosas, e algumas são proibidas. Comigo já foi assim, com muitos ainda serão.


Tudo em arte é política e esta constatação não tem que ser feita com uma sensação de ânsia de vômito, o que é preciso é procurar saber, entender o que é política, primeiramente, para, depois, tentar discutir, questionar e ressignificar, se for o caso. Não há mais espaço nem lugar para arte ou literatura uniformizada, pois nem mesmo dentro da modalidade artístico literária a qual me dedico, ou seja, a literatura de cordel, há unanimidade de expressão, nem uniformidade, nem homogeneidade neste terreno cultural tão fértil, e cujas formas, conteúdos, discursos e conceitos estão politicamente em disputa, todo mundo sabe disto!


Porém, como diz certo guia espiritual, apenas alguns importantes cegos conseguem ver o quanto nosso tempo é um tempo marcado, caracterizado por profundas alterações, transformações e transições de velhos para novos paradigmas, nas idéias, no pensamento, nas expressões, na filosofia e nas ciências em geral. E, como escritora, como cordelista, já nasci, já surgi em meio a este inconformismo com velhos padrões. Ressuscitemos, pois, mais uma vez o velho Marx: as mudanças não se processam sem conflitos, sem erros sem acertos, sem dores, sem contradições. E isto se aplica a arte, que por sua vez é sempre política e com toda razão.


Alexandre Lucas - Quais sãos suas convicções políticas atuais?

Salete Maria - Venho advogando, ao longo dos últimos vinte anos, um modelo de sociedade diferente deste no qual vivemos. Apesar de tudo, ainda me reivindico comunista, e por isto mesmo, libertária, apesar da morte - muito mais ideológica do que física - de muitos comunistas e de muitos comunismos de plantão. Sei que existe atualmente uma tendência, inclusive acadêmica e literária, voltada para a total negação do velho Marx. Reconheço as insuficiências do marxismo – que são muitas – mas percebo que em vez de serem supridas e são apenasmente demonstradas. Não há grandes esforços no sentido do aprimoramento desta teoria nos últimos anos. E os poucos esforços são escamoteados. Como disse, vivemos tempos de ricas e necessárias problematizações, inclusive da própria proposta de socialismo/comunismo. Mas também sabemos que este discurso se apóia predominantemente na necessidade de manutenção do capitalismo e onde muitos se reportam a derrocada das (até certo ponto equivocadas) experiências do leste europeu, mormente agora, quando do aniversario da queda do muro de Berlim, para perpetuar este regime perverso e desumano chamado de Rei Capital. Há um grande perigo nas generalizações e nas deliberadas confusões no campo das esquerdas. Refletir sobre isto demandaria uma conversa, uma entrevista exclusiva para tanto.


Estou tranqüila quanto as minhas convicções políticas, pois não pertenço e não defendo este comunismo ou socialismo domesticado, institucionalizado, que tem sido condescendente e até amigos dos patrões e dos políticos inimigos históricos da verdadeira proposta de sociedade alternativa. Não faço acordo com os predadores dos sonhos da juventude, da cultura, da arte, do futuro, do amor, da vida neste país e neste planeta. Eu prefiro seguir defendendo a ‘’outra’’ política. Um socialismo construído fora dos gabinetes, que seja forjado a partir da prática real, com seus erros e acertos, e não como discurso apenas. Não suporto estes socialistas que surgem apenas em ano de eleições.



Na verdade, temos que aproveitar para desconstruir cada vez mais isto. Devemos participar das eleições para deixar isto muito bem demarcado. Estou cada vez mais convencida da importância de se continuar travando uma luta política desde um lugar legítimo onde seja possível a participação incondicionada de organizações e pessoas verdadeiramente comprometidas com a emancipação e desenvolvimento deste país, desta região. Assisto a corrupção dentro do governo central do Brasil, dentro de partidos, inclusive os de esquerda, e vejo com tristeza as justificativas elaboradas para esta situação. Ah, e a adoração a caudilhos e novos-idolos populistas? Apesar de tudo, sigo crente na força dos movimentos sociais e num novo paradigma político onde, de fato, a revolução seja obra não de amplas massas amorfas e universais, como antes pensou Marx, mas de sujeitos, homens e mulheres, que, além de pertencerem a uma classe social, também sejam reconhecidos e respeitados em face de sua cor, sexo, etnia, idade, orientação sexual e tudo mais que faz com que tenhamos desejo de mobilização, de transformação social.


Sou do partido dos de baixo, dos que estão dispostos, por diversos meios, a contrariar chamado “coro dos contentes’’. Creio na dialética da vida. Ela sempre se impõe, sempre comparece...


Alexandre Lucas -Você foi uma das fundadoras da Sociedade dos Cordelistas Malditos. O que representou essa sociedade para a produção literária na região do Cariri?


Salete Maria - Sou uma participante apaixonada desta Sociedade que foi criada no ano 2000, em Juazeiro do Norte-Ce, por iniciativa de Fanka, Helio, Hamurabi e outros. Trata-se de “um grupo, um movimento, uma aliança informal de poetas” que veio enriquecer ainda mais a já rica cultura cariri, que de tão diversa, de tão múltipla, de tão cara, de tão nobre torna se a cada dia mais interessante aos olhos dos de dentro e dos de fora deste ‘’locus cultural’’.


Surgimos em plena ‘’comemoração’’ dos 500 anos do Brasil, e apresentamos uma proposta inovadora, problematizadora sobre arte, sobre literatura, sobre cordel. Desde cedo propusemos um diálogo do cordel com outras manifestações culturais.


Dizem que a diferença entre os Mauditos e os ditos tradicionais se dá tanto na forma quanto no conteúdo. E é verdade. Na forma, inovamos com o papel, com a capa, que além da xilogravura também usamos colagens, desenho, foto, etc. Às vezes ilustramos até as folhas internas do cordel. No conteúdo, procuramos abordar de modo crítico, denunciativo, propositivo, problematizador e emancipatório questões que os cordéis tradicionais tratam mantendo o status quo. Demonstramos a questão da violência contra a mulher, do discurso homofóbico, machista, racista, sexista presente em muitos dos clássicos da literatura de cordel. Falamos sobre temas os mais variados e demos visibilidade a acontecimentos, pessoas e relações sociais não tratadas até então por este tipo de arte.


Atualmente, os Mauditos estão, enquanto grupo, meio dispersos, pois os cordelistas precisam trabalhar para sobreviver...Eis a prova da existencial social e política do poeta...De vez em quando algum de nós se comunica com o outro, em geral para dar noticias de um novo cordel que tá produzindo...Hélio e Soneca já me mandaram textos maravilhosos que produziram neste período em que somente temos nos falado pela internet...


Mesmo assim, por onde passo gosto de destacar nossa Sociedade e o valor do trabalho do grupo e de cada um. Sempre coloco em relevo a importâncias da poesia dos colegas, dos Poetas Hélio Ferraz, Fanka, Soneca, Batata, Orivaldo, Nicodemos, Paulo, enfim, dos ditos mauditos do Cariri, que, na minha opinião são realmente muito bons. Logicamente que de tão mauditos temos divergências entre nós, mas isto faz parte da proposta de sociedade. Nos últimos tempos parece que quem mais tem publicado sou eu, e tenho procurado manter este espírito de poesia social e crítica que marca o nosso grupo e o meu próprio trabalho desde antes da Sociedade.


Em 2000 divulgamos manifesto que dizia mais ou menos assim: A nossa comunicação se dá através da poesia de cordel, traço da nossa identidade nordestina. Odiamos tecnicistas sem sentimentos literários. Somos contra o lugar comum da globalização que cria signos massificantes e uniformiza o comportamento estético. Nosso movimento pretende, sob uma ótica intertextual, utilizando vários códigos estéticos, redimensionar a literatura de cordel para um campo onde todas as linguagens sejam possíveis. Não somos nem erudito nem popular, somos linguagens. Entramos na obra porque ela está aberta e é plural. Somos poeta e guerreiros do amanhã. A poesia escreverá, enfim, a verdadeira história. Viva Patativa do Assaré e Oswald de Andrade.


Estamos revendo e relendo algumas questões. Para o ano 2010 está a previsto um encontro para pensar os 10 anos da Sociedade, quem sabe uma catarse? Gostaria de dizer que, na verdade, não foi exatamente a gente que se apresentou como os “diferentes”, foram os “iguais” que nos acusaram de não saber fazer cordel, de trair o cordel tradicional, estas coisas... Muitos sustentam ate que nós não fazemos literatura de cordel porque nós estamos quebrando dogmas, tabus do cordel. Mas este discurso já é tão previsível que já não nos importamos mais com isto.


Quanto à importância do movimento eu digo que este ainda não foi suficientemente compreendido, nem pelos membros, nem pelos apreciadores, nem pelos depreciadores. Falta pesquisa, falta pesquisa para entender isto... aliás, aproveito a entrevista para sugerir aos estudantes e aos estudiosos do campo da literatura e das políticas culturais que procure entender isto, pelamordedeus... Violeta Arraes, minha amiga magnífica, que esteve presente no lançamento dos Mauditos no ano 2000, disse-me, certa vez o seguinte: “este movimento de vocês vai dar panos para as mangas”... Espero que ela, como uma grande Carpinteira da cultura esteja certa... De qualquer modo, os Mauditos já são citados e estudados por alguns pesquisadores de instituições de fora do Cariri. Eu acredito foi uma grande experiência, e dou um grande Viva para os Mauditos do Juá.


Alexandre Lucas - Você já foi vitima de violência psicológica e física, enquanto mulher. Isso inibiu a sua produção poética?


Salete Maria - Engraçado, olhando para o meu trabalho tenho a sensação que quase sempre escrevi sob e sobre violência. Afinal a violência é uma das principais características de nosso tempo. Tem sido um fenômeno que nos invade todos os dias e não estamos imunes a ela, quer sejamos sujeitos pacíficos ou agressivos. Mas, de qualquer modo quando nos colocamos na posição de quem discute ou denuncia violências, como é o meu caso, passamos a ser alvos preferenciais. E isto tem sido um modo covarde historicamente utilizado por quem se julga poderoso para silenciar ou intimidar os que ousam contar outra versão da historia.


Costumo dizer que a violência não me intimida tanto quanto me indigna, não me petrifica tanto quanto me mobiliza, não me silencia tanto quanto me impõe a fala.


De minha parte, sempre coloquei minha palavra poética e política para combater as praticas de violência presentes em nosso meio social. Meus cordéis são meu legado, minha contribuição. De perseguida a ameaçada, sigo fazendo de minha poesia um parlatório ou um libelo crime acusatório contra tudo isto. Visitem meu blog e vejam o que dizem, dentre outros, os seguintes cordéis:
· Mulheres do Cariri: mortes e perseguição;
· Do direito de ser gay ou Condenando a Homofobia;
· Embalando meninas em tempos de violência;
· Mulher-consciencia: nem violência nem opressão.

Alexandre Lucas -Você se considera uma poeta marginal?

Salete Maria - Eu sou uma escritora de cordel, uma cordelista. Isto por si só já me coloca do lado de fora do cânone literário. No entanto, não me considero marginal apenas por este fato, afinal de contas outros autores de cordel estão sendo cada vez mais visibilizados pelos pesquisadores, críticos e amantes deste tipo de literatura e sendo (re)citados com grande aceitação. Um exemplo disto é o projeto da editora Hedra, que, a pretexto de resgatar e fazer justiça à literatura de cordel, lançou diversos livros contendo vida e obra de 50 importantes cordelistas homens, reconhecidos, principalmente, pela sua escrita em consonância com a gramática do dito cordel tradicional, da poesia dita ‘’popular’’, ignorando, portanto, vários outros escritores, mormente as mulheres, e criando novas marginalizações...


Sou, portanto, uma poeta marginal sob diversos aspectos, mas gostaria de citar três particularmente. Sou marginal por exclusão, assunção e experimentação...


Sou uma poeta marginal por exclusão porque estou situada literária, ideológica, geográfica fora do cânone. Ou seja, não escrevo a chamada grande literatura, não reproduzo os discursos dominantes e não me localizo nos espaços físicos onde circulam os grandes eventos e as grandes editoras, portanto, não caio na graça de muitos doutores ou folcloristas românticos autodenominados experts no campo.


Sou marginal por assunção, porque me reconheço e me assumo como de fora, da margem, da periferia, do outro lugar. E, em face desta atitude, vão se reforçando as outras formas de marginalização da minha obra, que se dá ate mesmo no Cariri cearense, este celeiro cultural, onde está situada a gráfica Lira Nordestina, da qual sou uma divulgadora e defensora e onde já imprimi diversos cordéis, bem como no seio da Universidade Regional do Cariri, onde laboro e curiosamente inexiste qualquer citação valorativa da minha obra, da minha poética, seja nos eventos, nos estudos e atividades de exposição e divulgação da literatura de cordel. Muito ao revés, o meu cordel tem sido expurgado por muitos que acreditam que ele gera um verdadeiro mal estar institucional, mormente porque, com ele, exercito a minha liberdade de expressão de modo incondicional. Como disse me assumindo poeticamente como out e o meu cordel marginal não rima, por decreto, em prol das autoridades de plantão.


Sou marginal por experimentação porque minha manifestação literária transita, desde há muito, entre o teatro, a musica, a dança, o bendito, a embolada, a fala, o discurso, cyber-espaço, o novo jornal, etc. Portanto, dispenso, deliberadamente, os meios tradicionais de circulação da minha obra, e vou preferindo que ela chegue à praça, a rua, a escola, a casa, a sala, ao ônibus, de um modo virtual ou distribuída de mão em mão, contanto que ele chegue às pessoas. Busco caminhos alternativos para divulgar o meu verso, e o faço também porque sem isto ele tenderia a permanecer ignorado dos novos públicos de quem tenho recebido criticas, elogios e, sobretudo, consideração.

Alexandre Lucas Você tem um blog que divulga as suas poesias. Você acredita que a internet é uma boa ferramentas para os artistas?


Salete Maria - Sem duvida que sim, a internet é um importante canal de comunicação, uma grande vitrine e para quem defende a democratização do conhecimento e das artes em geral, não é possível prescindir deste veiculo de informação. Foi exatamente pensando assim e desejando socializar a minha obra, que em 2007, após receber autorização para lançar o cordel A Historia de Zé Leitor, que a professora Sammyra Santana, especialista em Direitos Humanos, criou o blog Cordelirando, homônimo do cordel autobiográfico onde sintetizo a trajetória do meu versejar.
Este blog tem possibilitado o contato com leitores e pesquisadores de vários lugares do Brasil e de outros países, chegando, em 2008, a mais de 12 mil visitações.


Alem de divulgar a quase totalidade dos meus cordéis, o blog se apresenta como um grande mosaico, onde as capas são expostas de modo lúdico e criativo. Ademais disto, há espaço para noticias, recital e publicações relacionadas com o meu cordelirio, que não é possível encontrar em nenhum outro lugar.


O blog, portanto, é mais um sinal da relação social entre a poeta, a poesia, seus leitores e críticos e também serve de acervo para pesquisadores interessados em compreender minha composição.


Alexandre Lucas - Quando pretende lançar um livro?


Salete Maria - Primeiramente eu gostaria de agradecer imensamente por esta pergunta. E digo isto porque ela me possibilita problematizar algumas questões e desconstruir alguns preconceitos. Veja, trata-se de uma indagação que sempre me deixa um pouco intrigada e exige uma reflexão coletiva, sincera e profunda acerca da literatura de cordel. Senão vejamos. Todos nós sabemos que esta modalidade literária ainda é vista, por muitas pessoas, inclusive acadêmicos, como uma produção menor, secundaria, desimportante ou, seja, como uma não-literatura, o que faz com que os cordéis não sejam considerados livros e os cordelistas não sejam reconhecidos escritores.


E isto é assim por razões históricas, políticas, muito claras. O fato de ter sido produzido e consumido por classes subalternas, em sua maioria constituída por iletrados e analfabetos, ao longo dos tempos, especialmente em nossa realidade latina, e também por não ser objeto de estudo oficial nas faculdades de letras, faz com que o cordel sequer seja citado como literatura.


Mas é literatura, sim, seus autores são escritores, sim, e o que escrevem, quer recebam o nome de livreto, folheto, cordel, é, na verdade, um tipo de livro específico, particular. Até porque se aceitarmos a definição de literatura como “a arte de criar textos, de compor escritos artísticos” temos que a literatura de cordel é também produto de um trabalho de reflexão escrita, que requer conhecimento da técnica, até mesmo para desconstruir, exige preocupação e compromisso com a rima, com o conteúdo, como qualquer outro tipo literário.


Então não considerar o cordel como uma produção literária, ou seu produto como livro pode denota uma posição social e política que merece ser discutida, refletida, problematizada e transformada. Ademais, se em outras épocas o cordel foi desprezado, vê-se que, atualmente, há uma tentativa romântica de “valorizá-lo”, mas o mantendo no seu lugar social, ou seja, à margem. Sendo assim, não podemos mais permitir que a classe dominante, a seu bel prazer e através de seus representantes digam o que é arte, qual é a arte que tem valor ou que prive toda a sociedade do acesso a qualquer tipo de fazer artístico, e, tampouco decida quando lhe convier, como e quais modalidades literárias merece entrar no Canon institucional, concorda?


Sendo assim, ante esta reflexão e para responder a indagação, eu diria que já lancei inúmeros livros; pois tenho muitos cordéis publicados e prêmios recebidos em razão destas produções, certo?


Agora se você quiser saber quando vou lançar alguma coletânea, algum catálogo, alguma obra onde se possa encontrar toda a minha literatura reunida, aí eu digo que este é uma idéia que estou gerando, mas para mais a frente. Daí lançarei mais um livro e não o livro ou “um” primeiro livro, entende?


Insisto nisto porque se não falarmos assim, reforçamos a idéia de que cordéis não são livros, e se não o são, não merecem ser lançados, não devem ser comprados, não serão estudados, e, portanto seus autores não devem ser levados a serio. Aqui na Bahia assisti a um lançamento de cordel com o mesmo requinte, divulgação e participação e discussão com que se dá um lançamento de um livro convencional. Esta atitude desconstrói a idéia de que cordel não é livro e que seu lançamento deve ser escondido, modesto, acanhado.


Por isto, podemos e devemos desconstruir visões hegemônicas no campo literário também através da linguagem com a qual nos referimos às obras e seus autores, e com isto nos somamos a vozes dissonantes que emergem desde algum tempo na África, na Ásia e nas Américas, enfim (em países de passado colonial como o nosso), onde muito se luta pelo reconhecimento das manifestações culturais segregadas, excluídas, invisibilizadas historicamente.


Sabemos que o livro é uma criação da modernidade, ou seja, nem sempre existiu e não precisa existir no mesmo formato para sempre. Meu mais recente livro é meu blog, concorda?


Bom, de qualquer modo, um livro, neste formato comum, ainda não tive tempo nem grana para lançar, embora já tenha bastante material para isto. Ademais, ao longo desses últimos anos, por força do meu oficio profissional e acadêmico, tive que produzir e algumas vezes publicar fragmentos de petições, apelações, monografia, dissertação, artigos, papers, contos, poemas livres, e mais recentemente partes de minha pesquisa de tese doutoral, no entanto, no meio disto tudo, nunca deixei de escrever e publicar aquilo que é o meu maior prazer, ou seja, literatura de cordel.


Quem sabe eu publique um vade mecum em cordel em 2010, quando me desincumbo de tantas obrigações pessoais e profissionais?


Alexandre Lucas - Quais seus próximos trabalhos e quando retorna para o Cariri?


Salete Maria - Devo voltar definitivamente ao Cariri tão longo conclua minhas pesquisas de doutorado, portanto, espero que seja em breve.

Quanto aos meus próximos trabalhos, estou aguardando o lançamento do DVD Cordelirando que é parte integrante da Coletânea Mulher também faz cordel, gravado em Salvador pela grande cantora Socorro Lira, com direção de Gal Meirelles.


Neste trabalho o destaque é para o cordel intitulado Maria de Araújo e seu Lugar na História ou a Beata Beat Cult, lançado inicialmente em 2001, no SESC de Juazeiro e agora relançado em performance musical.


Também estou rabiscando dois textos ao mesmo tempo, pois sinto imensa necessidade de circulação em minha veia poética (risos)...

Remexendo meus escritos, vi que existem dois ou três cordéis que não foram publicados e talvez eu os publique no ano que se aproxima.


Espero ter a oportunidade de apresentar solenemente minha obra literária na Universidade onde laboro, a fim de torná-la conhecida de tantos quantos atuem no campo ou sejam amantes da literatura.


De uma coisa estou certa, meu próximo lugar de fala, com muita honra, será no Blog Coletivo Camaradas, a quem eu agradeço pela oportunidade e pela consideração.

Rosembeg Cariry: Uma trajetória marcada pela defesa de uma arte libertária.

Homem da arte e da luta do povo. Do Cariri para o mundo ou vice-versa Rosemberg Cariry tem o seu trabalho marcado pela cultura do povo contextualizada com o seu tempo. Unir o popular com o erudido, o regional com o universal é uma das caracteristicas do trabalho deste artista engajado. Nesta entrevista concedida ao Coletivo Camaradas, Rosemberg fala de política, marxismo, estética, filosofia, artes e da sua intensa trajetória.

Alexandre Lucas - Quem é Rosemberg Cariry?

É sempre difícil um homem definir quem ele mesmo é. Parece absurdo, mas o tempo é quem define o homem. Sócrates, segundo Platão, inspira toda a sua filosofia na inscrição da entrada do templo de Delfos: Conhece-te a ti mesmo. Mas que homem pode, em essência, compreender-se diante do absurdo da condição humana e da dupla natureza humana: animal/espiritual, liberdade/contingência cósmica, transitoriedade/impulso de eternidade? O homem não é Deus e inventa-se em sua rebelião contra Deus ou no seu reencontro com o Deus que o põe à prova (ver o Livro de Jó). O homem é em relação ao espaço e ao tempo em que vive, em mutação, em transformação. O homem é um animal em construção. Acho que a morte, em alguns casos, dá a aparente completude e medida do homem. Mesmo assim, resta o mistério... Digo isto, para justificar, neste momento, a minha dificuldade em me definir...

Alexandre Lucas - Quando tiveram início seus trabalhos artísticos?

No final da década de 1960, quando organizei os primeiros espetáculos reunindo jovens e velhos mestres da cultura popular. Desde esse tempo, nasceu em mim essa vocação para reunir o “velho” e o “jovem”, o “popular” e o “erudito”, o “regional” e o “universal”, dualidades aparentes, mas que se completam. Toda contradição é aparente. O regional contém o universal, o popular contém o erudito, e o jovem contém o velho, assim como a manhã contém a noite, e a noite, por sua vez, contém o dia. Tive envolvimentos com dois movimentos culturais importantes do Cariri. O primeiro deles foi o Grupo de Artes Por Exemplo.

Alexandre Lucas -Fale-nos sobre o Grupo de Artes Por Exemplo.

Em 1973, no Crato, no Cariri cearense, surgiria o Grupo de Artes Por Exemplo, que reunia jovens da pequena classe urbana local e artistas populares em torno de diversas atividades artísticas e culturais. Publicava-se uma revista mimeografada chamada Por Exemplo. Rodavam-se os primeiros filmes Super-8 documentários e de ficção. Faziam-se performances artísticas, happenings, shows musicais, encenações teatrais, ao mesmo tempo em que era promovido um substancioso intercâmbio entre a região do Cariri e capitais dos Estados Nordestinos, notadamente com as cidades de Recife e Fortaleza. Esse grupo eclético, no qual me incluo, reunia nomes como Bil Soares, Hugo Linard, Jackson Bantin, Walderedo Gonçalves, Múcio Duarte, Pedro Ernesto, José Roberto França, Abdoral Jamacaru, Emérson Monteiro, Jefferson de Albuquerque Jr., Luiz Carlos Salatiel, Pachelly Jamacaru, Vera Lúcia Maia, Luiz Karimai, Ivan Alencar, Cleivan Paiva, Bá Freyre, Zé Nilton, José Wilton (Dedê), Stênio Diniz, José Bezerra (Deca), Valmir Paiva, Geraldo Urano, Socorro Sidrin e Célia Teles, entre outros. A principal marca do Grupo de Artes Por Exemplo era a diversidade das tendências, que se identificavam no objetivo de projetar a cultura do Cariri cearense para o País. Patativa do Assaré participava ativamente dos happenings, espetáculos e recitais do grupo. Fazíamos o Salão de Outubro...

Alexandre Lucas -O Salão de Outubro foi muito importante para a cultura do Cariri?

O Salão de Outubro, realizado pelo Grupo de Arte Por Exemplo, a partir de 1974, firmou-se, como um espaço privilegiado de reunião das vanguardas artísticas e das manifestações ditas populares, congregando poetas, artistas plásticos, escritores, cantores, compositores e cineastas em torno da ideia de promover mostras de trabalhos e espetáculos, bem como exercitar o intercâmbio com outros centros artísticos. A proposta do grupo, que se reunia em torno do I Salão de Outubro, era a representação da arte por meio do encontro com os materiais e os elementos da cultura local, buscando, ao mesmo tempo, o cruzamento da tradição com as vanguardas artísticas. Esse ideário transformou o evento num grande sucesso. Havia uma forte influência da contracultura norte-americana, do rescaldo cultural da década de 60, do underground, dos movimentos de contestação, do teatro de Augusto Boal, do Grupo Oficina, do teatro do absurdo de Qorpo Santo, das leituras dos movimentos de vanguarda pós-revolucionários soviéticos, da revista Rolling Stones, dos movimentos de contracultura norte-americanos e europeus – tudo isso junto com cegos cantadores, reisados de mestre Aldenir e do Meste Dedê de Luna, coco do Mestre Carnaúba, poemas de Patativa, Cine Clube da Fundação Padre Ibiapina e programas radiofônicos de Elói Teles. Patativa do Assaré, Cego Oliveira, Zé Gato, Banda de Pífanos dos Irmãos Aniceto, Azuleika, João de Cristo Rei, Mestre Tico, Correinha, Severino Batista do Berimbau de Lata, Mestre Nino, Zé Ferreira, Ciça do Barro Cru, Cícera Fonseca, Mestre Noza, Chico Mariano do Mamulengo, Mestre Bigode, Zé Oliveira, Pedro Bandeira, Cego Heleno e outros artistas populares tomavam parte ativamente dos eventos artísticos, sendo convidados para participações especiais em performances, happenings, recitais e shows. Junto com Deca e Geraldo Urano, fizemos peças de teatro experimentais, happenings, recitais, apresentações bem vanguardistas no Festival da Canção. Agitávamos o Cariri. Para o Salão de Outubro, de Fortaleza, chegavam nomes como Caio Silvio, Graccho Sílvio, Ana Maria Roland, Ferreirinha, Ângela Linhares, durante a realização do Salão. Na geléia geral brasileira, misturava-se tradição e vanguarda, regional e universal, popular e erudito, como é o caso da Escola de Música do Padre Ágio e a orquestra do Belmonte. O grupo mantinha ainda intercâmbio com os artistas caririenses do êxodo. Em São Paulo, Hermano Penna já conquistara importantes prêmios com seus filmes, e Jefferson de Albuquerque Jr. se profissionalizara no cinema. Tiago Araripe compunha com Tom Zé, fazia parceria com os concretistas Irmãos Campos e participava de um grupo de pop-rock brasileiro chamado Papa Poluição, que tinha, em sua formação, músicos cearenses e baianos, todos radicados em São Paulo. Tiago Araripe ligou-se, posteriormente, com o pessoal da Lira Paulistana.

Alexandre Lucas -Uma época de grande efervescência...

Sim, um período de grande efervescência e de vivências intensas. Se Fagner, Ednardo, Belchior, Rodger, Téti, Amelinha, Fausto Nilo e Brandão faziam sucesso e exerciam grande influência sobre os jovens músicos e compositores do Cariri, não menos sucesso e influência exerciam Zé Ramalho, Alceu Valença, Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda, Quinteto Armorial, Gil, Caetano, Tom Zé e outros compositores e grupos da cena nordestina contemporânea, além de todo um clima de busca de integração latino-americana por meio das músicas de Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, Victor Jara e Mercedes Sosa. O Jefferson de Albuquerque Jr. chegara do Chile e trazia todas essas novidades. O jornal Versus, com artes e culturas da afro-latino-américa era uma grande referência literária e jornalística. De Minas, chegavam os ecos profundos do Clube da Esquina. Além do mais, o Festival da Canção do Cariri era o grande acontecimento musical da região e revelaria toda uma geração de jovens compositores.

Alexandre Lucas - E o Nação Cariri, que rompeu as fronteiras da região?

No início de 1979, em período de férias, reuniram-se, no Crato, vários artistas aí radicados com artistas e produtores culturais que moravam em outras regiões do País. O motivo da reunião era criar um movimento mais amplo de arte e cultura e um jornal que tivesse uma ampla circulação e fosse um elo entre a cultura popular tradicional e jovens artistas contemporâneos antenados com outras influências. Procurou-se um nome para ele, e surgiu Nação Cariri, em homenagem aos índios Cariris e à luta que travaram contra os colonizadores, na chamada Confederação dos Cariris. O grupo inicial foi, praticamente, o mesmo que fazia o movimento Por Exemplo, no qual eu estava inserido, tendo sido um dos seus fundadores, ao lado de Jackson Bantin, José Wilton (Dedê), Cleivan Paiva, Teta Maia, José Roberto França, Emérson Monteiro, Geraldo Urano, Pachelly Jamacaru, Zé Nilton, Luiz Carlos Salatiel, Stênio Diniz, Jefferson de Albuquerque Jr., Valmir Paiva, Luiz Karimai e Decas, entre outros); o movimento teve, logo em seguida, a colaboração de artistas que moravam em São Paulo (Tiago Araripe, Hermano Penna, Francisco Assis do S. Lima); em Recife (Ronaldo Brito) e em Fortaleza (Oswald Barroso, Firmino Holanda, Marta Campos, Itamar do Mar e Carlos Emílio Correa, entre outros). A estes nomes, foram acrescidas dezenas de outros, durante a segunda fase do jornal; entre eles, citamos: Floriano Martins, Natalício Barroso Filho, o livreiro Gabriel José da Costa, Fernando Néri, Rejane Reinaldo, Joana Borges, Fátima Magalhães, Juarez Carvalho, Pingo de Fortaleza, Ronaldo Cavalcante, Diogo Fontenelle, Nilse Costa e Silva, Ronaldo Lopes, Alan Kardec e Luciano Maia. Patativa do Assaré era o mestre, aquele que consagramos como poeta maior. Editamos um jornal muito legal, com poemas, artigos, desenhos, ensaios...

Alexandre Lucas - E o jornal conseguia circular?

Desde os seus primeiros números, o jornal foi distribuído em várias cidades do interior cearense e em algumas capitais brasileiras, por meio de seus correspondentes, chegando assim a circular em universidades, grupos literários, bancas de revistas, livrarias, sindicatos etc. Contudo, o maior impacto do jornal, com ampla divulgação na imprensa e nos meios intelectuais, foi em Fortaleza, cidade onde o Nação Cariri faria sua história. O ano de 1979 foi um período de grande atividade para aquele movimento. Foi quando, na qualidade de um dos coordenadores do movimento, tomei parte das reuniões preparatórias do Massafeira Livre e sugeri a participação dos jovens artistas e dos artistas populares do Cariri. Como saberíamos depois, o Massafeira Livre iria ter grande importância na carreira e no reconhecimento de alguns desses artistas e servir também de balão de ensaio para o show Canto Cariri, ao qual já fiz referência, quando tratei do Grupo Siriará.

Alexandre Lucas - O Nação Cariri deixou de ser apenas do Cariri?

O campo de atuação do jornal foi crescendo cada vez mais e recebeu, inclusive, um efetivo apoio do livreiro Gabriel José da Costa. O Nação Cariri não se conteve em ser apenas um jornal e se transformou em um movimento amplo, independente e combativo, tendo sido capaz de deixar duradouros marcos na cultura e nas artes do Ceará. O Nação Cariri atuou nas áreas de música (promoção de shows, editoria de discos), teatro (peças em sindicatos, bairros e campanhas políticas progressistas), literatura (publicações e recitais públicos), artes plásticas (ilustrações de livros e exposições) e cinema (realização de curtas-metragens sobre cultura popular). A atriz e produtora cultural Teta Maia dá também o seu testemunho: “Foi a partir dessa experiência que os poetas do Nação Cariri retomaram a oralidade dos poemas e realizaram inúmeros recitais em teatros, sindicatos e praças públicas”. Como editora, a Nação Cariri publicou vários livros de autores cearenses, bem como álbuns de desenho, cartazes e folhetos. Uma das grandes preocupações do movimento, ao mesmo tempo em que dialogava com poetas de vários países e com as manifestações de vanguarda, foi a valorização crítica da cultura popular. Os artistas do povo tiveram vez e voz. Grandes mestres e artistas do povo foram divulgados, com grande repercussão. Exemplo maior dessa ação foi a decisiva participação do grande poeta popular Patativa do Assaré, que sempre fez uso das páginas do Nação Cariri e deu grandes contribuições também em recitais e shows artísticos. Artistas e grupos de artes tradicionais foram valorizados e se tornarem bastante conhecidos das novas gerações. A aproximação do Nação Cariri com os artistas populares do Ceará foi uma experiência muito rica. O encontro da tradição com a vanguarda, do popular com o erudito, do saber científico com o empírico, no calor das lutas e das conquistas de espaços simbólicos, marcou o início de uma caminhada que considero vitoriosa para as culturas populares cearenses.

Alexandre Lucas -- Oswald Barroso foi outro artista de esquerda com grande contribuição nesse movimento, não é mesmo?

Sim, Oswald Barroso, além de dramaturgo e poeta, é também um pensador, com importante contribuição teórica. A respeito do Nação Cariri, ele afirmou: “Para além das suas buscas estéticas e suas preocupações políticas de esquerda, Nação Cariri caracterizou-se pelo relevo dado às artes e aos artistas populares, trazendo-os para o primeiro plano. Cultivava-se uma arte, que se queria de vanguarda, mas referenciada nas tradições do povo. O encontro com os artistas populares influenciou profundamente setores intelectuais da classe média, ligada ao Nação Cariri. O Nação Cariri buscava a ligação com uma literatura de combate terceiromundista. Nessa direção, publicou uma série de autores estrangeiros, latino-americanos, africanos e asiáticos, de preferência, identificados com suas propostas. (...) A presença recorrente de temas e traços estéticos da vida e da linguagem popular no cinema, no teatro, na música, na literatura e até nas artes plásticas, que hoje se faz no Ceará, não é de todo alheia à influência militante que Nação Cariri exerceu em nosso movimento cultural. O mesmo acontece com o reconhecimento do mérito (inegável, mas por tanto tempo negado) de artistas populares que são hoje orgulho de cearenses e brasileiros”. (Ceará – Uma cultura mestiça. Livro inédito).

Alexandre Lucas - Quais suas influências artísticas?

A minha primeira e mais importante influência foi a do meu pai, seu Zé Moura e das minhas avós: Perpétua e Mourinha. Do meu pai, foi um legado ético e de amizade; das minhas avós, o contato com o mundo encantado da cultura popular, por meio das histórias, das canções e das atividades lúdicas. No tempo em que meu pai morou no Crato, ele foi amigo de grandes mestres da cultura popular: Patativa do Assaré, Cego Heleno, Dona Ciça do Barro Cru e outros. A bodega do meu pai e o Bar Tupy, do meu avô Manoel Pereira, bem próximos da bodega de Joquinha, na rua dos Cariris, eram pontos de encontro desses e de muitos outros artistas populares. Conheci ainda Walderedo Gonçalves, mestre Aldenir, Zé Gato Azuleica, os Anicetos antigos, Mestre Noza, Cizin, Cícera Lira, entre tantos outros. Patativa indicou-me a leitura dos primeiros poetas clássicos. Seu Elói já era famoso, e o programa “Coisas do Meu Sertão” era assistido por todos, dos velhos às crianças. Depois entrei nos Seminário São Francisco de Juazeiro e no Sagrada Família, de Crato, onde tive contato com toda uma literatura clássica europeia. Pude assim perceber que muitas dessas influências eruditas e clássicas encontravam-se ainda vivas em muitas das manifestações populares dos grandes mestres.

Alexandre Lucas - Como você vê a relação entre arte e política?

Toda arte é política, mesmo quando o artista pretende realizar “arte pela arte”, se partimos da compreensão aristotélica de que o homem é um ser político, vive em sociedade preservando e transformando essa sociedade, em permanente conflito. No entanto, a arte não pode ser enquadrada em ditames burocráticos partidários e ideologias que sufocam a liberdade. As tentativas históricas de acorrentar a arte em padrões burocráticos e sistemas ideológicos fechados, seja por qual ideologia for, sempre se mostraram desastrosas. Eu aprendi a ver a arte ligada à insubmissão, à liberdade.

Alexandre Lucas - Você também é poeta. O que a poesia representa para você?

Poesia é sempre a possibilidade da renovação, não apenas da linguagem, mas também do sentido da vida. Em épocas de crise, poetas-samurais podem até ver alguma poesia no brilho das espadas ou no fogo dos canhões e confundirem este brilho fugaz com o brilho da eternidade. No entanto, este brilho aparente é treva. A poesia pode falar da luta libertária, mas ela não é luta, é apenas o sonho de liberdade. A poesia pode ser filha do conflito, mas não se subjuga ao conflito. Hoje, já na meia idade, é que vim compreender isto. Enquanto vida, a poesia é maior do que as guerras e que as revoluções, pois almeja a paz e só se realiza no mais profundo humanismo, de forma radical, tendo o homem como raiz do homem. Mesmo quando ela é sagrada e fala de Deus, é do homem que ela fala; do homem e dos seus sentimentos, do homem e da sua fragilidade, do homem e da sua busca irrealizada de absoluto. Quando o instinto da morte triunfa, a poesia se faz ainda mais necessária. Adorno afirmou, certa vez, que não era possível fazer poesia depois de Auschwitz. Talvez o certo seja afirmar que, depois de Auschwitz, a única coisa que ainda pode salvar o homem é a poesia. Quando eu penso em poesia, no Cariri, eu penso em Patativa do Assaré e Geraldo Urano, dois grandes poetas, de estilos e visões do mundo completamente diferentes, e, no entanto, necessários e vitais. O Cariri seria mais pobre sem esses dois grandes poetas. Patativa do Assaré já morreu e foi reconhecido em vida e também na posteridade. O Geraldo continua vivo e ainda desconhecido. Quero um dia dedicar um ensaio à poesia de Geraldo Urano.

Alexandre Lucas - A sua estética cinematográfica busca uma contextualização histórica e apresenta um discurso engajado. A estética de Glauber Rocha e Bertolt Brecht está contida na sua produção?

Sim, pode ser compreendida como um discurso engajado, no sentido de que, embora buscando um discurso universal, não me desligo dos processos históricos e culturais nos quais estou inserido, o que provoca novas possibilidades de reflexões sobre esses mesmos processos históricos e culturais. As contribuições marcantes de Glauber e Bertolt Brecht estão presentes nas minhas obras, mas não mais do que cineastas como Paradjanov e Pasolini, ou de mestres como Patativa do Assaré , Mestre Aldenir e Mestre João Aniceto e Ariano Suassuna, para ficarmos apenas em alguns poucos exemplos, entre os muitos. Não parti apenas do discurso neo-barroco glauberiano ou do teatro épico de Brecht, descobri outras formas do barroco, do épico, do figural, do poético, do sagrado, do rebelde, nas próprias manifestações das culturas populares nordestinas, que são herdeiras das grandes correntes culturais ibéricas, mediterrâneas e magrebinas. Ainda estou buscando caminho. Talvez por isso, eu goste muito do filme Siri-Ará, enquanto busca de construção narrativa e estética. Neste filme eu trabalhei, ao lado de atores profissionais, com o reisado do mestre Aldenir Callou e com a Banda de Pífanos dos Irmãos Aniceto.

Alexandre Lucas -A diversidade cultural das manifestações populares é recorrente nas suas obras. Qual a importância da “cultura do povo” (termo utilizado pela filósofa Marilena Chauí para reformular o conceito de cultura popular) para afirmação da identidade nacional?

Uma identidade nacional não é algo definido, é algo em construção. O que é o povo brasileiro? Para Darcy Ribeiro, que vê o Brasil como uma Roma tardia, é resultante do “encontro de todas as taras e talentos da humanidade”. Para mim, o povo brasileiro é esse imenso caldeirão étnico e cultural, onde a humanidade se reinventa com a contribuição de mil povos, de mil raças e de mil culturas. Quando falamos em cultura do povo, no Brasil, estamos falando de culturas dos povos, sejam povos autóctones ou povos transplantados que trouxeram também suas influências e mestiçagens. Quando se fala em povo brasileiro, estamos falando nessa herança de toda a humanidade. Quando estamos falando em regional, com certeza, queremos dizer universal. É preciso pensar o que chamamos de “cultura do povo”, de forma mais ampla e mais generosa, sem as peias do regionalismo ou do nacionalismo fechado.

Alexandre Lucas - Quando você foi Secretário da Cultura no Crato desenvolveu um projeto audacioso de intersetorialidade no bairro Alto da Penha, que foi denominada de Projeto Rabo da Gata, o qual envolveu implantação de videoteca, biblioteca, realização de cursos e até saneamento básico, entre outras ações. Qual a importância da intersetorialidade nas políticas públicas para a cultura?

Em 1996, eu estava na França, quando fui convidado pelo Dr. Raimundo Bezerra para ser Secretário de Cultura do Crato. Abandonei alguns projetos importantes e vim para o Crato. Na época, a Violeta Arraes era Reitora da Urca. Vim porque um sentimento mais profundo me chamou e eu acreditava que poderia dar alguma contribuição para o desenvolvimento da cultura local. Fizemos o possível, dentro das possibilidades reais, lutando contra visões bem conservadoras. Mesmo assim, ainda conseguimos realizar um bocado de coisas, e mesmo as coisas que não foram realizadas no Crato terminaram por fecundar e ser gestadas no Estado do Ceará em outros Estados. Alguns projetos, como o dos Mestres e Guardiões dos Saberes Populares, que lançamos no Crato, com a grande contribuição de Cacá Araújo e Elói Teles de Moraes, em 1976, vieram depois a se tornar política pública federal. Entre alguns projetos que foram postos em prática ou elaborados naquele momento, cito: o I Encontro das Culturas Populares do Nordeste e os projetos do Parque Histórico do Caldeirão, da Universidade de Saberes Populares e Contemporâneos (Escola de Saberes), Festival de Cultura dos Povos (transformado posteriormente em Encontro de Mestres do Mundo), do Centro Cultural da RFFSA, do Crato, do Corredor Cultural do Crato (que previa o estabelecimento de escolas de teatro, de dança, de cinema, de artes plásticas, oficinas de literatura, entre outras, deste o sítio Lameiro, onde está situada a Escola do padre Ágio, passando pelo bairro do Pimenta, pela URCA, Parque de Exposição, pelo Rabo da Gata - derivando para a Praça da Sé, pela Estação Ferroviária, seguindo a ferrovia com ocupação dos espaços com quiosques culturais, passando pela Faculdade de Direito, até chegar ao Pau do Guarda), da Associação dos Curumins do Sertão (terminou acontecendo em Farias Brito), da Fundação Cego Aderaldo (depois intitulada Mestre Elói) e da Revitalização do Bairro Rabo da Gata (Crato), entre outros. O projeto da Estação chegou a ser realizado, e a revitalização da Quadra também. Não sei como ficou o Cine Estação Moderno, que já tinha sido começado e para cuja conclusão conseguimos mais recursos, na época.

Alexandre Lucas - E as festas populares?

Lembro-me também do Grande encontro da malhação do Judas, da Coroação de Nossa Senhora, na igreja matriz, com centenas de anjos e a orquestra do Padre Ágio. Um espetáculo de significado profundo (que toma o religioso sob o signo do feminino), o Projeto de Revitalização do Bairro Batateiras (Parque Ecológico da Nascente) etc. Tentamos ainda fazer grandes festas ligadas a Nossa Senhora do Belo Amor, à Confederação do Equador e à memória de Dona Bárbara. Não conseguimos tudo, mas os projetos foram feitos. Queríamos colocar o Crato novamente no grande circuito cultural do Nordeste. Em tudo que fazíamos, havia essa integração entre cultura, educação, saúde, bem estar social, cidadania etc. Não praticávamos um conceito fechado do exercício cultural. Cultura, para nós, tinha um conceito bem amplo e participativo, intersetorial. Era um projeto que estava ligado às lutas pelas transformações sociais. Tínhamos uma turma boa: o Cacá Araújo, a Dane de Jade, o Carlos Rafael, Alemberg Quindim, Cleivan Paiva, o Bola e tantos outros. Não custava sonhar, e nós sonhávamos. Essa experiência durou apenas um ano. Dr. Raimundo Bezerra, o prefeito do Crato, que morreria algum tempo depois, também era um sonhador, um homem culto que lutara contra a ditadura e que conhecia o mundo. O Crato deve uma homenagem a esse grande homem.

Alexandre Lucas - Você tem uma forte ligação com o movimento de esquerda, tendo inclusive sido militante do PCdoB. Isso contribuiu para a forma do seu pensar e fazer artístico?

Sim, fui militante político do PCdoB, no final da década de 1970, até meados da década de 1980 e foi um período muito importante da minha vida, pela participação nas lutas coletivas e pelos companheiros que conheci. Do partido, ampliamos os nossos campos de leitura sobre filosofia, sobre história, sobre cultura e sobre arte. Aproximamo-nos ainda mais das artes russas do período pós-revolucionário, das leituras e de Brecht etc. No entanto, jamais consegui engolir o conceito de “realismo socialista”, que deveria ser imposto a todos os povos do mundo, passando por cima das diversidades culturais dos povos. Zadnov sempre me pareceu um burocrata medíocre e fez um enorme mal às artes dos artistas socialistas de todo o mundo. Essa visão burocrática e reducionista afastou das lutas socialistas alguns dos mais importantes artistas do mundo e, subsequentemente do Brasil, da militância socialista. A arte não pode ser presa em formas burocráticas. Panfletária, romântica, dadaísta, surrealista, barroca, futurista, popular, erudita, não importa, a arte deve ser libertária.

Alexandre Lucas - Qual a contribuição do marxismo para a compreensão da arte e da cultura?

O marxismo contribui de forma marcante com o pensamento crítico das culturas e das artes no século XX. Podíamos mesmo dizer que foi influência dominante nas universidades e nos grupos intelectuais de todo o mundo. O que não era marxismo, muitas vezes, eram respostas ao marxismo. Georg Lukács (1885-1971), Antonio Gramsci (1891-1937) e Theodor Adorno (1903-1969) são nomes importantes, mas a eles somam-se centenas de outros. Marx, Engels, Lenin e Trosky também têm importantes reflexões sobre a cultura e as artes. Se fôssemos citar os artistas que fizeram uma arte ligada aos princípios da filosofia marxista, teríamos uma enorme quantidade de nomes que perpassam todos os movimentos culturais e artísticos do século .

Alexandre Lucas - Como vê você a circulação da produção cinematográfica brasileira?

A circulação, ou seja, a distribuição e exibição são os grandes problemas do cinema brasileiro. Muitas vezes, 2/3 das quase duas mil salas de cinema no Brasil são ocupados por um único produto norte-americano, os chamados blockbuster. As majors, as empresas transnacionais que detêm a hegemonia do mercado internacional, determinam a ocupação desses espaços. Por outro lado, as salas estão concentradas nos shoppings centers e constituem um espaço de lazer da classe média dos grandes centros urbanos. O cinema popular no Brasil foi destruído, não existem mais cinemas populares nos bairros das grandes metrópoles e nas cidades de médio e pequeno porte. Imaginem que, na cidade do Crato, na década de 1960, existiam seis cinemas. No Cine Educadora, funcionava um Cineclube ligado à Fundação Padre Ibiapina que era importantíssimo. Nós víamos o melhor do cinema mundial. O que resta, hoje? Quantas salas de cinemas existem no Crato? Quantas salas de cinema existem no Cariri? Que filmes são exibidos nessas salas? O Cine Mais Cultura, do MinC, está com o projeto de instalar 2.000 salas de cinemas populares no Brasil, em cidades de pequeno e médio porte. O Cariri devia se mobilizar e instalar salas de cinema em todas as cidades da região. Seriam salas de cinema em pequenos centros culturais comunitários, com gestão coletiva etc. É preciso criar novos modelos. Com as novas tecnologias e a convergências de mídias, ficou mais fácil encontrar soluções criativas.

Alexandre Lucas - A produção cinematográfica estadunidense é um empecilho para o cinema latino- americano e caribenho?

A produção de Hollywood é um problema não apenas para o cinema latino-americano e caribenho. Acredito mesmo que essa produção, que detém por volta de 90% do mercado mundial, é um problema para todo o mundo e mesmo para os cineastas independentes dentro dos Estados Unidos. Esta indústria de cinema é tratada como indústria estratégica e é colocada pelo Estado no mesmo pé de igualdade da indústria da guerra. Eles sabem que aonde chegam os filmes norte-americanos chegam também seus produtos, seu modo de vida, sua ideologia... A grande guerra que se trava no mundo hoje não é a de tanques, é a de satélites, é a do controle dos meios de comunicação de massa, é o domínio das mentes e dos corações.

Alexandre Lucas - O Coletivo Camaradas homenageará a sua produção em 2010, tendo em vista o caráter engajado das suas obras. O que isso representa para você?

Representa que esse coletivo de jovens do Cariri poderá levar os meus filmes e meus poemas a encontrar-se com o público da periferia da cidade do Crato e de outras cidades da região. Se os meus filmes sempre foram feitos com a marca da coletividade, é bom que esses filmes sejam devolvidos à comunidade.

Alexandre Lucas - Quais seus planos para 2010?

Rodar o filme Folia de Reis, uma farsa popular sobre o neocolonialismo e o consenso de Washington (os reflexos perversos dessas políticas nos países subdesenvolvidos). Também quero instalar no Cariri, de forma experimental, as primeiras “Escolas de Saberes Tradicionais e Contemporâneos”, no caso, o “Saber Reisado” e o “Saber Cabaçal”. Vou tentar.

Edival Dias - Da periferia para o palco da vida

Alexandre Lucas - Quem é Edival Dias?

Edival Dias - Artista, educador, militante esquerdista (PCdoB) e ator social. Nascido a 25 de setembro de 1966, na pequena cidade de Bom Conselho - PE, vindo residir com meus pais na cidade de Crato-CE aos 11 anos de idade para ingressar no Ensino Fundamental II, pois até então só havia estudado na área rural. Morei no bairro Batateiras até os 14 anos, quando me mudei para Recife, depois Rio de Janeiro e São Paulo, retornando ao Cariri há cinco anos e estabelecendo uma relação de pertença com esta região. Hoje sei que posso contribuir com meus préstimos profissionais em diversos setores da sociedade e tenho tido a oportunidade de crescer profissionalmente e realizar o que gosto e sei fazer, que é trabalhar com as artes no fomento de uma educação libertadora e política, tendo como clientela as várias esferas sociais.

Alexandre Lucas - Quando teve inicio seus trabalhos artísticos?

Edival Dias - Sempre associei as minhas lutas sociais à arte, pois interagir em outros universos, pois estamos dialogando e intervindo nas relações humanas o que exige da gente um desdobramento e uma entrega ao outro, coisas que só os artistas fazem com tanta propriedade, o que chamo de empatia, viver a situação do outro, comungar com o outro e sobre tudo partilhar de interesses coletivos. Mas a arte formal só aconteceu no ano de 1990, quando fui convidado para participar de uma seleção para atores num grupo de teatro chamado GRUTMA, na cidade de São Paulo, o qual foi a minha primeira experiência em palcos convencionais, neste período fazíamos um teatro mambembe e vendíamos nossos espetáculos nas escolas públicas da periferia da cidade de São Paulo, foi uma experiência ímpar, pois neste momento, descobri a minha outra faceta, a de ator social, pois via nas escolas a possibilidade de fazer um teatro educativo, porém não tinha a consciência desse fazer teatral, até então só intuição, coisa que viera se confirmar mais tarde, quando entrei para a faculdade de artes cênicas e comecei a pesquisar e me fundamentar nas teorias das artes.

Alexandre Lucas - Qual a sua formação na área do teatro?

Edival Dias - Comecei a minha graduação em 1992 na Faculdade Mozarteum de São Paulo, hoje Famosp. Graduado em 1996 e pós-graduado só em 2005, pois fazer uma pós-graduação há dez anos, era privilégio de poucos, só me oportunizando agora e no cariri. Salve o cariri. Tenho especialização em Educação especial/Inclusiva, tendo como temática o teatro inclusão, pois percebo e acredito que a arte é por excelência um vetor de inclusão social e só seremos uma sociedade democrática e livre da opressão quando socializarmos e incluirmos todas as raças e credos num mesmo cenário, respeitando as particularidades e as diferenças que são peculiares a cada indivíduo, mas que podem comungar na diversidade. Nesse período de 1996 a 2005, busquei sempre a minha formação contínua na área, participando de simpósios, conferências, seminários, cursos, atuação em grupos teatrais e terceiro setor (ONG`s), no qual me recordo com saudosismo da Fundação Gol de Letra, que me ensinou como atuar nessa área social, pois estávamos localizados no meio de uma periferia, cercada de favelas e ao mesmo tempo no meio de uma clientela rica de saberes popular e domínio de territorialização, pois eles sabiam por que estavam ali e o que queriam da vida, sobre tudo respeitavam o espaço coletivo da comunidade, vivendo em harmonia.

Alexandre Lucas - Você vem da periferia e isso faz alguma diferença para compreensão sobre arte?

Edival Dias - Com certeza, só podemos nos expressar com propriedade quando somos conhecedores de causa, digo que a arte tem a função de perturbar e isso só podemos fazer no caos. A periferia traduz com muita propriedade esse caos, pois aglomeram o que a sociedade chama de “marginalidade” e nós periféricos estamos sempre a margem do sistema, apesar do avanço da globalização.

Alexandre Lucas - Quais suas influências no seu fazer artístico?

Edival Dias - Ufa!!!!!!!!!! São tantas, costumo me definir como um pigmaleão, me adapto as diversas situações propostas pelo o meio ao qual convivo, assim, recebo influências das mais diversas, dependendo do contexto ao qual estou inserido: Dona Edite do coco da batateiras(minha mãe), Bertold Brecht, Karl Marx, Michael Foucault, Ariano Suassuna, Maria Yuma, Irene Ravache, Cordel do fogo encantado, Paulo Freire, PCdoB, Augusto Boal, Chico Buarque de Hollanda, Gianfrancesco Guarnieri, Jesus Cristo, Padre Cícero, Beato José Lourenço, profeta Gentileza, Artur Bispo do Rosário, Fundação Gol de letra, Colégio Angelli Bonni, Natália Giro, Cia brincante de teatro, carroça do mamulengo e tantas outras.
Como você a relação entre arte e política?
Não consigo desassociar arte da política, a arte é com excelência uma manifestação política, uma forma de pensar, fazer, interagir e o melhor, formar opiniões. Com a arte falamos verdades e mentiras e ainda podemos sair à francesa quando necessário, como faziam com a comédia Dellárte.

Alexandre Lucas - Você acredita que o teatro pode ser instrumento de politização?

Edival Dias - É um fato, por meio do teatro educamos platéias, portanto é um instrumento político, pois há transformação.

Alexandre Lucas - No período da Mostra Sesc você ministrou oficina sobre Teatro do Oprimido com jovens da periferia. O que resultou em intervenções teatrais nas filas de espetáculos do evento. O que isso significou?

Edival Dias - Foi uma das minhas mais valorosas contribuições para a arte no contexto social, pois estávamos envolvidos com uma clientela da periferia, com pouca experiência teatral e que resultou num trabalho consciente. As meninas curingas,vivenciaram algo que estava fora da sua realidade e conseguiram atrair a atenção de um público bem diferente do seu universo, pois muitas delas nunca tomara conhecimento ou participara da mostra SESC, assim, cumprimos com o papel do teatro do oprimido, intervir em universos desconhecidos com a empatia do público, levar o outro a refletir sobre o seu papel social, onde todos podemos atuar no mesmo patamar de igualdade.

Alexandre Lucas - Você integra o Coletivo Camaradas o que isso representa para você?

Edival Dias - Mais uma experiência e influência na minha carreira artística, representa poder atuar na esfera social, sem perder a maestria da arte politizada e técnica se necessário.

Alexandre Lucas - E por falar nos “Camaradas” você coordenará o Grupo de Estudos e Experimentos Teatrais do Coletivo. Em que consistirá esse grupo?

Edival Dias - A proposta de trabalharmos com a linguagem teatral no coletivo é nos apropriar dos fazeres artísticos em defesa de uma causa social e educacional, um teatro que valorize a pesquisa, o experimento, a criação e que a produção seja resultante de todo um processo, que possa ser discutido e dinamizado com o grupo e parceiros envolvidos numa perspectiva de um teatro didático e político, fazendo valorar a aquisição da aprendizagem nessa vertente.

Alexandre Lucas - Quais seus próximos projetos?

Edival Dias - Plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho. rsrsrsrrsrsrsrsrsrsrsrrsrs