domingo, 22 de maio de 2016

Edilson Melo: O performer que desafiou o monstro


Se as vítimas de assédio e racismo têm os seus agressores como monstros, nem todas tem a coragem de desafia-los. O estudante do curso de Artes Visuais  da Universidade Regional do Cariri – URCA e performer, Edilson Melo  vem realizando uma série de ações performáticas para denunciar casos de assédio moral e racismo, os quais se coloca como vitima. O performer relata que não é a única pessoal que sofreu assédio moral no Centro de Artes da URCA e declara  “o professor, atual diretor do Centro de Artes, mandou um aluno “ir pra puta que pariu”, expulsando-o de sala e ameaçando-o com a retirada de sua bolsa de pesquisa (dentro de uma reunião do grupo de pesquisa). Ou quando, este mesmo professor, chamou uma aluna de “horrorosa”, dentro de sala de aula, na presença de outros estudantes, porque esta mesma aluna havia ido de cabelo preso pra aula. Todos os casos se interligam pelo mesmo “princípio de medo coletivo”, no sentido de que muita gente presencia os casos, mas ninguém fala nada sobre porque tem medo de também ser vítima.

Quem é Edilson Melo?
Sou uma bixa anarquista, preta, pobre, nordestina e muito orgulhosa de meu pai, negro e analfabeto, e de minha mãe, técnica em enfermagem. Sou uma artista visual em construção. Estudante de artes visuais em explosivo processo de criação.

O que motivou a realização de suas performances no Curso de Artes da Universidade Regional do Cariri – URCA?
As inquietações surgiram desde que comecei o curso, em 2013. Quando cheguei ao Centro de Artes da Urca me deparei com um ambiente pesado, um pequeno feudo, encharcado de casos “mal resolvidos” de assédio moral e outros tipos de violência.
A primeira performance, intitulada : “Aqui se fere”, apresentada durante a Semana de Acolhimento do Centro de Artes, em novembro de 2015, foi motivada por um caso em específico. Em que um professor de fotografia, (que se posicionava CONTRA os inúmeros acontecimentos sobre assédio moral no campus) me mandou ir-me foder (usando estas mesmas palavras) dentro da Urca, durante um evento público de fotografia, com os alunos de sua disciplina. A ofensa ocorreu após o professor ser contrariado por mim, durante breve discussão sobre notas, na presença de vários alunos e artistas. O professor chegou a vir pra cima de mim, inflando o peito e engrossando a voz, insinuando corporalmente que me agrediria fisicamente. Logo depois, o mesmo professor me ameaçou com a diminuição de notas na mesma disciplina. (foto de Kakaw Alves e Jarlane Lima)




Em uma das performances você problematiza o assédio moral. Relate esse caso? Você tem conhecimento de outros casos?
Além do primeiro caso que eu vivi, relatado acima, outros casos ocorrem de forma quase que corriqueira no campus de Artes da Urca. Como quando o professor, atual diretor do Centro de Artes, mandou um aluno “ir pra puta que pariu”, expulsando-o de sala e ameaçando-o com a retirada de sua bolsa de pesquisa (dentro de uma reunião do grupo de pesquisa). Ou quando, este mesmo professor, chamou uma aluna de “horrorosa”, dentro de sala de aula, na presença de outros estudantes, porque esta mesma aluna havia ido de cabelo preso pra aula. Todos os casos se interligam pelo mesmo “princípio de medo coletivo”, no sentido de que muita gente presencia os casos, mas ninguém fala nada sobre porque tem medo de também ser vítima, porque é conivente com a situação, etc. Um dos últimos professores que pediu exoneração do Centro de Artes da Urca (OITO (8) PROFESSORES FORAM EMBORA NUM ESPAÇO DE quatro ANOS, ALEGANDO ASSÉDIO MORAL) alegando assédio moral, comentou que se “tratava de um ecossistema contaminado”. Vários casos são possíveis de serem relatados, VÁRIOS MESMO. Inclusive o mais recente que eu, Edilson, vivi na pele...
Então, foram ofertadas bolsas de estudo para o Curso de Artes. Tentei fazer minha inscrição para uma das bolsas ofertadas. No edital de oferta das bolsas (disponibilizado no site da Urca) foi pedido um documento que era pra estar no próprio site da Universidade, mas não estava (tenho edital e print do site pra provar que o erro é da IES). Procurei o departamento de artes visuais pra solicitar este Ú-N-I-C-O papel que faltava para minha inscrição no processo seletivo.
Cheguei, inclusive, a mostrar, na tela do computador, o erro que a Urca havia cometido no site e no edital. Porém, a atual Chefe do Departamento de Artes Visuais, com muita arrogância me disse “que não queria saber, que ‘independente do erro’ o papel estava lá, e eu não o havia imprimido porque não quis”. Continuei tentando explicar pra Chefe do Departamento que eu só não havia imprimido o papel por causa do erro entre o edital da Urca e o site da Urca. Neste momento, a professora olha pra sua amiga, que é a Coordenadora da Licenciatura em Artes Visuais-Urca, e comenta a seguinte frase –“ESSE POVO DAQUI NÃO SABE O QUE É UNIVERSIDADE”...
Eu perguntei pra ela a qual povo ela se referia. Ela, já muito irritada, disse que eu estava pondo palavras na boca dela e começou a me acusar de estar assediando-a. A professora, em tom de ameaça, olha bem pro meu rosto e me pergunta se- “eu quero confusão”. Depois dessa pergunta, dirigida a mim, eu informei que iria levar o caso ao C.A. de Artes Visuais pra que fossem tomadas as devidas providências. Depois desse informe, a Chefe de Departamento disse que eu estava a ameaçando. Começou a ficar vermelha e a gritar dentro do departamento... APENAS neste momento (em que a professora já estava, de fato, descontrolada) que houve a interferência da Coordenadora da Licenciatura em Artes Visuais. Em defesa da colega, claro. A Coordenadora disse que eu podia sim levar o caso para o C.A. que era um direito meu, enquanto estudante.
Levei o caso para o C.A. e pedi que fosse marcada assembleia estudantil pra que fosse discutido com os estudantes este tipo de situação vexatória e humilhante, que voltava a se repetir no mesmo “antigo” espaço, só que desta vez, com uma nova professora.
O C.A. de Artes Visuais demorou pra marcar a assembleia estudantil. Aquilo me inquietava e me maltratava ainda mais, foi aí que decidi apresentar a performance estético-política: “ Silêncio aos Berros”, na qual, bem basicamente, colei lambes por toda a Universidade. (fotos de Souzara Taiomara)



Além de assédio você também foi vítima de racismo e fez uma performance sobre o tema. O que aconteceu?
Então, depois que apresentei a performance “Silêncio aos Berros”, passei a ser vítima de perseguições também de alunos, bolsistas de professores acusados de assédio, do Centro de Artes da Urca. Vincularam na internet fotos de minha ação em preto e branco com um nome escrito em vermelho (bem grande, rs) por cima. Estava escrito “#issonãomerepresenta”. Por eu ter plena consciência de que meu trabalho não pede pra que ninguém se sinta representado, (eu sempre trabalhei a partir de mim e de minha auto representação) mas sim, pede, grita, pra tirar as pessoas do conforto, provocá-las a algo, inquietá-las. Por estar firme no que eu costumo chamar de “princípios artísticos” (risos) do meu trabalho de atuação como estudante de arte e Performer, eu decidi realizar outra performance*** para problematizar essa questão da representação da comunidade no trabalho artístico da artista e também para ir de contraponto aos comentários que surgiram dizendo “nunca ter tido assédio moral no campus, que isso era passado, coisa de vitimista”. Diante do “breve movimento #issonãomerepresenta”, entra a aluna Verónica Leite, que também é bolsista dos professores assediadores. Em sua tentativa violenta e inescrupulosa de deslegitimar as performances realizadas (utilizou o perfil, no facebook, de sua esposa, que foi vereadora da cidade e é empresária, portanto exerce forte força política no contexto), referindo-se aos trabalhos como: “coisa de quem não tem o que fazer e coisa de quem não estuda”. A aluna bolsista fez um comentário racista, seguido de uma ameaça pública, em que ela diz ter tinta branca pra me pintar de branco, insinua que eu devo apertar mais o pano no pescoço pra morrer pois ela poderia pagar meu velório etc.
Os comentários racistas e o linchamento virtual que um grupo de alunos bolsistas promoveu, inspirados (isso foi admitido em assembleia estudantil por pelo menos quatro alunos e está na ata, se a ata não sumir, como já aconteceu com atas de reuniões no Centro de Artes da Urca, a prova está na ata, que deve registrar tudo da reunião) num discurso de ódio inteiro feito por  um certo professor contra mim e minhas ações num certo grupo de pesquisa da Universidade, resultaram nesta performance. Ainda sem nome, no ato performático, eu basicamente convidei os linchadores virtuais a lincharem na vida real também. Pichei a Universidade com palavras de resistência contra o racismo e assédio. E desfilei pelo campus segurando cartazes e um crânio de boi na face.



Depois desta ação, ainda cheguei a fazer outra performance, a última, mais recente. Em que, em alusão a uma antiga lenda, que contava que os serafins perfuravam as pontas dos dedos das crianças revoltas e desobedientes, eu perfurei a ponta de dois dedos de cada mão, com agulhas estéreis. Enquanto perfurava berrava de dor, a cena foi pensada pra causar o choque, o confronto audiovisual mesmo, e causou, de fato. Logo que terminei de perfurar os dedos, o SAMU chegou à Universidade. Um dos socorristas disse que um professor havia ligado informando que “um aluno sofria de graves surtos psicológicos e poderia atentar contra a própria vida e a vida de outrem”. Pintei-me de branco e expus a aluna que havia dirigido os comentários racistas e a ameaça pública a mim, que lá estava presente. Levei tinta branca até ela, durante a performance, e perguntei se minha cor a incomodava e sobre seu interesse em me pintar de branco. Pus uma corda no meu pescoço enquanto declamava aos gritos a violência que o negro sofre por ser negro na atual sociedade. Denunciei que as pessoas que assassinam jovens negros agem na mesma linha de pensamento que a referida dos comentários.


Como você percebe a moção intitulada “MOÇÃO DE REPÚDIO ENDEREÇADA ÀS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR DE ARTES DO BRASIL assinado por professores da URCA?
Acima de tudo é, claramente, uma tentativa de se vingar de mim, impedindo que eu consiga emprego depois de formado, porque eu denunciei aos quatro ventos o histórico de assédio e racismo que a Urca carrega e tenta encobrir a anos. Depois, os professores queriam se livrar das grandes e negativas proporções da repercussão que tomou o fato deles, doutores em artes, terem chamado o SAMU e em seguida a PM para conter aluno que performava denunciando racismo e assédio dentro da IES. Isso (de alguém chamar SAMU e PM pra aluno por causa de uma performance) não acontece em nenhum centro de artes do mundo!... Daí decidiram fazer a moção para me prejudicar e mais uma vez, tentar me calar. A moção de repúdio foi a maneira mais cruel e desumana, encontrada por eles, para me punir e justificar o injustificável. Os danos materiais e, acima de tudo, os danos morais que me causam são incalculáveis, citando a morte de meu pai pra justificar que eu tenho fragilidades psíquicas e que poderia atentar contra minha vida. A moção de repúdio começou a ser vinculada em sites de grande visibilidade artística e minha família começou a sofrer ainda mais com isso, levando minha mãe a uma queda de pressão após ler a nota de repúdio. Minha família inteira está muito chocada com este tipo de atitude que parte de professores, doutores, detentores de locais de poder, contra um único aluno, preto, viado e pobre, que nem a licenciatura conseguiu terminar ainda.

Uma outra moção foi  feita na sua defesa e assinada lideranças dos movimentos sociais, professores e artistas de diversos estados brasileiros. Como você ver esse movimento de solidariedade ao seu caso?
A única esperança no fim do túnel, rsrs. Foi incrivelmente reconfortante ver toda a solidariedade de pessoas do Brasil todo e até de fora, expressando o amparo, oferecendo apoio a mim e repudiando os horríveis acontecimentos que tem, inclusive, colocado minha vida em risco. Vários artistas dos quais eu muito admiro pelos longos anos de trabalho com antiarte, pornô terrorismo, performance, expressando ajuda... Quando a moção de apoio foi publicada eu chamei mainha pra ler e ela ficou muito feliz, vimos, enfim, uma esperança. O apoio de uma galera linda aqui do Cariri, que esteve comigo durante alguns dos atos atuando como linha de proteção mesmo, uma galera muito disposta a lutar encontrei, graças a algum Orixá...

Você foi ameaçado de morte?
Depois dos comentários da aluna falando em pagar meu velório, me pedindo pra apertar pano no pescoço, e me chamando pra “conversar depois cara a cara”, todos os advogados com quem falei me disseram que se configurava em ameaça de morte sim. Mas além dos comentários públicos, um outro dia, depois da aula, a mesma aluna me chamou, de dentro de seu carro pra conversar, eu tive medo e não fui, afinal de contas não é novidade nenhuma pessoa branca e rica matar preto e pobre.  
Como isso aconteceu?
Depois desta última performance, onde os professores chamaram SAMU e PM para mim. No fim de tudo, na saída do centro de artes, fui abordado por TRÊS homens que queriam me agredir dizendo estar defendendo o diretor do centro de artes, depois diziam ser parentes do diretor do centro. A todo momento mencionavam que estavam em defesa do diretor do centro de artes. Só não me surraram por causa de algumas amigas que estavam comigo e se colocaram fisicamente entre mim e os agressores! Corremos para dentro da Universidade novamente pra buscar abrigo e um dos agressores correu atrás de nós até entrarmos na direção do Centro. Ao entrarmos na direção o agressor entrou junto! Falou com o diretor como se o conhecesse, no mesmo momento o mesmo diretor se levantou pra chamar o guarda (o único) pra retirar o agressor que havia nos seguido até lá. Depois disso fui à delegacia registrar B.O., pois os agressores gritaram que “se não me pegassem naquele dia, me pegariam em outro”. Fiz o B.O. a seguir, a foto do mesmo...



Você atesta ter algum problema psiquiátrico ou psicológico? Como você enxerga o seu trabalho performático?
Não tenho nenhum problema psiquiátrico ou psicológico como foi insinuado na moção de repúdio, vale lembrar que os professores anunciam isso sem laudo médico nenhum! Baseados em informações que eles alegam que eu e o C.A de Artes os fornecemos (risos). O C.A. negou, pra mim, o fato de alguém ter procurado departamento pra informar preocupação comigo.
Acho que meu trabalho visual é um caminho pro ‘anarco-terrorismo’ antes de tudo. Trabalho com Antiarte, que é básico e essencialmente arte baseada em propostas antagônicas das formas tradicionais ou na rejeição total de práticas artísticas e valores estéticos consolidados, em favor do choque, da arbitrariedade e/ou do nonsense.
Na performance, eu busco o limite do que minha mente e meu espírito podem suportar. Meu corpo frágil é só o suporte, e colocado como tal, mais ainda se fragiliza. Eu busco auto cura através do enfrentamento ao que me oprime. Sempre na utilização das ‘não-teorias’, como no “Terrorismo Poético” de Hakim Bey. Meu trabalho com performance é pensar meu corpo a partir do meu contexto de vivência: periferia, miséria, pobreza, genocídio, violência. Pensar meu corpo exposto à fragilidade do que chamamos de “cis-tema heterocapitalista”.

MOÇÕES PÚBLICADAS:  

ENDEREÇADA ÀS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR DE ARTES DO BRASIL
POR UMA COMPREENSÃO DIALOGAL DO HISTÓRICO DE ASSÉDIO MORAL NA UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI



4 comentários:

  1. MOSTRO?! Quem são os verdadeiros monstros?

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    1. O Monstro 👾 do assédio, do mal caratismo, do ódio. ...

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  2. Monstros do ressentimento, da insegurança, covardia, arrogância, petulância, do desrespeito. Monstros que podiam só em nossos pesadelos habitar... mas que estão por ai, distribuindo monstruosidades... http://culturanocariri.blogspot.com.br/2011_10_10_archive.html

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  3. Lamentável, observarmos que uma instituição pública de ensino não consegue, a não ser pela negação, permitir o diálogo necessário para sua transformação! Transformação, o elemento primordial da vida e ouro das artes!!!!

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